Merecido descanso
Seguindo meu caminho, sabia que devia procurar primeiramente por comida, e conhecia muito bem as ruas de granada, os comércios, ou qualquer coisa que tivesse ali, mas sabia também que a busca por suprimentos poderia ser um caminho sem volta. Infectados têm necessidade de suprir sua fome, seja com qualquer tipo de carne, de preferência, viva. Então, achei um supermercado por onde estava andando, preparei a arma, o facão e os olhos, prontos para checar à fio qualquer coisa que estivesse ali. Desci do carro e fui buscar comida. O caminho entre o estacionamento e a porta de entrada parecia estar vazio, mas mesmo assim fui andando cautelosamente até que cheguei onde queria.
Meu espanto foi ainda maior quando vi que o supermercado também estava vazio. O que seria aquilo? Talvez um repelente de zumbis ou coisa parecida? Não quero saber. Para facilitar as "compras", peguei um carrinho que estava por ali e fui atrás de tudo que precisava. Peguei muita carne, frutas, biscoitos, lanches rápidos, cereais, algumas bebidas, uma solução anticorrosiva (algo como WD-40), um pano, álcool concentrado, algumas roupas, e por último, alguns cds para escutar durante meu longo percurso no carro.
Achei que estava fora de perigo e fui saindo normalmente. Nem percebi que as luzes ali funcionavam, e o aparelho anti-roubo da loja também. Ao passar por ele, com todas as mercadorias que eu tinha pegado, foi estrondoso o apito feito por ele, aumentado ainda pelo silêncio. Corri um pouco, mas quando cheguei na porta, tive uma surpresa nada agradável, um bando de infectados, com seus olhos bem fixos, me esperava ali. E a F-250 estava muito longe da entrada, no fim do estacionamento. Só me veio um pensamento na cabeça, algo como: Chegou minha hora!
Três infectados que estavam na frente deram início ao ataque. Um pulou sobre mim, outro tentou me agarrar, e um conseguiu me arranhar muito. Empunhei a UZI, mas não ia adiantar muito, as balas que eu tinha não eram suficientes para tantos zumbis. Atirei um pouco, consegui afastar alguns de mim, mas inutilmente. A dor corria grande parte do meu corpo. Nunca pensei que arranhões poderiam fazer aquilo. Quase me pus agachado de tanta dor que sentia. Abaixei um pouco o corpo e coloquei o braço por cima da cabeça, me protegendo de mordidas. Agachado, vi uma garrafa de EverClear dentro do meu carrinho, era de tamanho pequeno, passaria por entre os buracos que tinham ali, mas com muito esforço. Tentei passar meu braço por entre eles, consegui com dificuldade. Quando eu estava prestes a pegar o EverClear, senti uma pontada na região do pescoço e vi meu próprio sangue correr por entre minha roupa, e meus braços pareciam estar sem movimento. Senti que estava perto da morte, fiz uma rápida prece à Deus, e no mesmo momento em que terminei, pude sentir um dos meus braços de volta. Peguei a arma e atirei como um louco, se as balas acabassem, eu não estava nem aí. Consegui afastar alguns infectados, e ganhei um tempo para pegar a bebida no carrinho. Consegui pegar e comecei a correr pra mais longe, ainda com um braço sem movimentos. Fiquei correndo em círculos, tentando destampar a garrafa, apoiada abaixo do braço esquerdo, e o direito tentando remover a tampa. Depois de muito tempo consegui, coloquei a tampinha na boca e senti gosto de álcool puro (EverClear possui 95% de álcool, não tentem beber isso!). Rasguei um pedaço da blusa, e coloquei uma parte dentro da bebida, e deixei um pedaço pra fora. Quando consegui tampar novamente, um zumbizinho anão me atacou, meu Deus, nunca pensei que um anão fosse tão rápido. Ele estava agarrado em minhas costas, tentando me morder, mas minhas roupas grossas o estavam impedindo. Mais uma vez, admirei a jaqueta de couro.
Repentinamente, senti meu braço esquerdo movimentando-se, dei uma cotovelada no anão, que caiu rapidamente no chão, minha garrafa que estava debaixo do braço, caiu junto. O chão totalmente infestado de álcool, eu só tinha uma opção, a UZI. Um dos poucos carros que estavam no estacionamento estava ali perto, atirei contra o tanque do carro, mas nada adiantou. Um carro antigo, com carroceria de ferro não seria tão fácil de ser atingido. Continuei correndo em círculos, e cheguei ao meu carrinho. Avistei um pedaço de carne fresca, tirei-a da sacola e lhe dei um tiro. A bala a atravessou facilmente, e queimou um pequeno pedaço da carne, o que fez exalar o cheiro um pouco mais forte. Joguei a carne no álcool, e como eu havia planejado, os esfomeados pararam de me seguir e foram atrás da carne. A arma estava com poucas balas, umas 30 talvez, parece muito, mas é pouco para uma metralhadora. Mesmo assim atirei no carro que estava ali. Atingi a parte da frente do carro, e uma fumaça começou a exalar dali, só então, dei um tiro certeiro no álcool esparramado pelo chão.
Talvez os infectados tivessem ficado um pouco feliz comigo, uma carne assada era muito melhor que carne pura, porque com aquela explosão, digna de 4 de Julho nos Estados Unidos. Vendo a explosão, minhas dores voltaram, já que o sangue estava frio novamente. Caí no chão, mas não tinha problema, o show que eu estava vendo era muito bom. O anãozinho que havia me atacado voou a pelo menos uns 30 metros de altura com a explosão. Não sabia se ria pelos infectados morrendo, ou se chorava por todas aquelas pessoas que tão sofridamente haviam se tornado zumbis.
Minha blusa já estava toda rasgada mesmo, então puxei mais um retalho e enorolei-o sobre meu braço esquerdo, que doía bastante. Com dificuldade me levantei e fui ao carrinho de compras. Peguei um pouco de álcool e joguei sobre os ferimentos. Ardeu como nunca, mas em pouco tempo, a dor diminuiu e fui pegar mais um pedaço de carne no supermercado, já que um serviu de almoço àquelas criaturas. Dessa vez entrei e saí, sem perigo algum. Quando cheguei na F-250 e coloquei as coisas na carroceria, fiz um rápido agradecimento à Deus por ter poupado minha vida, não é todo dia que centenas de zumbis de atacam e você sobrevive.
Entrei no carro e testei alguns cds, Guns N' Roses, outro do AC/DC, Eagles, Pink Floyd, Nirvana, Red Hot Chilli Peppers e mais alguns. Era difícil pra mim imaginar que todos eles tinham se infectado, toda minha época de boas músicas e bons músicos havia sido perdida. Pela primeira vez pensei em como poderiam ter deixado escapar um vírus tão poderoso, e pior ainda, como poderiam o ter criado, e para que? Acho que isso é algo que nunca vamos saber.
Passei por uma casa de jogos, estava com as luzes ligadas, talvez estivesse funcionado. Senti uma necessidade de entrar ali e, caso funcionasse, usar a internet. Dessa vez estacionei meu carro com a porta rente à porta do lugar, de modo que eu só poderia entrar ou sair se passasse pelo carro, era um ótimo modo de proteção. Depois de estacionar cuidadosamente, peguei mais munição para a UZI e deixei as duas portas abertas, entrei na Lan House. Chegando lá, avistei apenas por um infectado, estava sem as pernas, urrou muito, mas não me apresentava perigo, pensei em o deixar vivo ali, até que um copo acertou minha cabeça, filho da mãe! Retruquei com um HeadShot muito bem dado, consegui com um só tiro fazê-lo calar para sempre, e fazer também com que nunca mais mande copos nos outros, mal educado.
Vasculhei por outros pelos poucos cômodos do lugar, parecia seguro, então liguei o computador principal dali. Demorou cerca de cinco minutos até ligar, e quando ligou, estava muito lento. Peguei algumas ferramentas no carro, usei meu conhecimento em mecatrônica e abri o computador, dei-lhe uma limpeza física da memória, limpei sua ventoinha e o processador e fiz uma mistura de álcool e pasta de dente para usar como adesivo térmico que fica acima do processador, deixando-o mais resfriado do que antes. Foi difícil, mas o resultado valeu a pena, podemos dizer que era um novo computador, muito mais rápido, e estava fazendo jus às configurações que tinha. Pois bem, vi que havia alguns jogos na área principal, e no meio deles, um jogo chamado Left 4 Dead, que, parecendo por ironia, é um jogo onde 4 sobreviventes de uma pandemia apocalíptica de zumbis lutam para manterem-se a salvo.
Semprei gostei desse jogo, então, o abri pra descontrair um pouco. Entrei no modo online do jogo, apenas brincando, sabia que não haveria ninguém ali. Esperei o servidor procurar por adversários, e mal acreditei quando um usuário com o nome "I need help" (Preciso de ajuda) entrou em meu servidor. Rapidamente comecei o jogo. Peguei um dos fones de ouvido que havia ali e ativei o modo de conversa. E então começamos a nos falar.
"I need help" era na verdade uma mulher, chamada Roberta, esse nome é muito comum no Brasil, país de origem de nós dois. Ela me disse que estava em um depósito, feito por seu pai que era considerado louco, já que acreditava na hipótese de extraterrestres invadirem a terra. Pensei se ela não estava mentindo pra mim, mas não parecia mentira, ela já estava três meses ali, e ainda havia bastante comida, e uma conexão direta com a internet. Ela deixava todos os meios de comunicação da casa ligados todo o dia, todos os seus 20 jogos online conectados, suas redes sociais, anúncios de mercadorias, em resumo, tudo que a mantivesse conectada, para procurar ajuda. Tinha 17 anos.
Eu estava muito longe para ajudar, mas nos mantendo conectados, sentiríamos mais seguros, já que a velha frase "A União Faz A Força" tem um sentido lógico na psicologia, nas conversamos, teríamos uma sensação maior de segurança. Mas isso não nos protegeria fisicamente, e senti que tinha que fazer algo por ela, viver em um depósito não deveria ser nada bom. E lá estava eu, com mais um problema nas mãos, a solidariedade me batia no peito, porém a distância tentava me impedir de fazer alguma coisa. Só tem um problema, eu nunca fui de abaixar a cabeça pra nada, nem pra ninguém, eu iria ajudar aquela garota a qualquer custo ou distância!

0 comentários:
Postar um comentário
Dê sua opinião, crítica ou elogio sobre o capítulo. Reaja, Comente!