Um Infectado nada comum
No porto, peguei a F-250 e fui andando devagar, preocupado e alerta contra qualquer possível ataque. Nessa cautelosa missão, obtive sucesso, cheguei, atordoado, porém, sem ferimentos ao FR-42. Desci da caminhonete e abri sua carroceria. Pensando no pior, me muni de uma arma, uma UZI, que poderia vir a calhar no caso de um ataque. Começo a pensar que, quando armado, infectados não seriam problema. Pois bem, carreguei a UZI e entrei na lancha. Tudo estava revirado, malditos zumbis, eu estava pronto pra aniquilar qualquer um que me aparecesse, ninguém entra, mexe, ou sai do meu FR sem minha autorização!
O FR-42 é uma lancha de dois andares, eu estava no segundo, fora de perigo. A estação de comando estava ali, averiguei por possíveis danos feitos à ela. Não vi nada de diferente, me acalmei um pouco.
Aquele cenário escuro, a madrugada, a brisa fria do vento, tudo isso contribuía para meu nervosismo, e quando estou nervoso, fico com fome. Desci para pegar alguma coisa, acho que os infectados não teriam conseguido invadir ali, a porta era trancada com um cadeado e uma corrente, ambos de aço, muito grossos e resistentes. Sempre mantinha comigo as chaves do FR. Só que, ao chegar perto da porta, tomei um susto. A corrente estava quebrada, e a porta aberta!
Entrei sutilmente pela porta, ergui a arma em posição defensiva, se algo estava ali, e havia quebrado minha corrente, deveria ser extremamente forte. A sala de estar estava revirada, minhas coisas no chão e algumas quebradas, parecia que um tornado tinha passado por ali. Fui ao banheiro, no corredor que ia para a cozinha. Vi ali um homem parado, parecia não estar infectado, mas estava em péssimo estado, sua barriga estava entreaberta, como uma mulher que faz uma operação cesariana. Fiquei ali, parado, o observando por alguns minutos. Vi que ele movia lenta e regularmente a cabeça para os lados, parecia estar fora de si, como sob o efeito de alucinógenos, e com os movimentos que fazia, parecia sentir uma dor terrível. Após algum tempo, ele parou de se mexer. Senti pena e não quis disparar contra ele, fui saindo do banheiro, sem conseguir tirar aquela cena da mente.
Quando abri a porta do banheiro, ouvi um urro grave e alto, mas meio choroso, apóis isso, um vulto veio acima de mim. Aquele homem havia sido infectado, e, pulando sobre mim, me fez bater de cara com a parede do corredor, caí no chão com o bicho em minhas costas, sua mão me ardia, e suas unhas desenvolvidas arranhavam-me o dorso. Estava me debatendo contra o bicho, tentando esmagá-lo, com certeza não estava dando certo. Apesar de estar com uma jaqueta de couro, podia sentir suas unhas entrando nas minhas costas, e quanto mais me debatia, mais dor eu sentia. Depois de um momento naquela situação, senti dentes pontudos entrando por dentro da jaqueta de couro que eu estava usando, suas mãos desprenderam-se de mim e num ato impulsivo, lhe dei uma coronhada com a UZI, antes que conseguisse me morder. Senti a arma o atingindo perfeitamente na cabeça , aquilo o machucou e me deu uma dianteira para levantar. Já erguido, mirei contra ele e desferi alguns tiros, aliás, muitos tiros, cerca de 20 tiros na cabeça e mais alguns no corpo. Eu estava novamente fora de perigo, aquela jaqueta havia salvo minha vida, aí então, a partir daquele dia, criei um certo carinho especial com ela.
Após contemplar aquele infectado morto no chão por algum tempo, segui o corredor e fui até a cozinha. Estava com muita fome, e queria apenas pegar um lanche rápido, mas para minha infelicidade, a cozinha estava igualmente revirada, a geladeira, tombada ao chão, com a porta aberta e as gavetas quebradas. A cozinha do FR é dividida em dois compartimentos, eu estava em um, que tinha a pia, a geladeira e um microondas, no outro, uma mesa, uma bancada e um fogão. A primeira não tinha nada de anormal, fui vasculhar a segunda.
No exato momento em que entrei na segunda parte da cozinha, mirei a arma em direção ao canto, no encontro das duas paredes. Ali havia um infectado, com mais ou menos um dois metros e meio de altura, com um corpo que faria um fisiculturista chorar e um rosto que qualquer Pit Bull correria assustado ao vê-lo. Minha sorte foi que ele estava comendo, e nem se deu conta da minha presença ali. Era minha chance de atacar primeiro. Antes de começar o ataque, abri a gaveta que estava na bancada e procurei pelo meu facão, coloquei-o na mão esquerda e fui na direção do monstro. Comecei a atirar como um louco em suas costas, mas as balas pareciam o agradar. Depois de muito tiro, descansei um pouco e examinei rigorosamente a situação.
Consegui ver que uma veia estava realçada na parte de trás do seu pescoço, talvez se eu atirasse ali poderia o matar. Atirei por alguns segundos e infelizmente acertei. Na mesma hora ele se levantou e deu um urro que mais parecia um bando de ursos e leões correndo atrás de uma só presa. Com certeza a atitude mais correta a ser feita naquele momento, humanamente falando, seria correr, correr muito, mas num ato totalmente impensado, joguei uma cadeira contra o infectado. Ele pareceu ficar ainda mais irritado, e só então comecei a correr. Ele me seguiu. Eu corria bastante, e ele apenas andava, e mesmo assim conseguiu manter uma pequena distância entre mim e si mesmo.
Após algum tempo de corrida dentro do FR, lembrei que estava em um porto, onde tem gasolina, e resolvi não atirar, para preservar a munição para o que eu estava prestes a fazer. Tomei uma boa dianteira e parei um pouco para descansar, esse com certeza foi o maior erro que eu pude cometer em toda a minha vida. O motor da lancha ficava na parte de cima, com uma proteção contra a água. O infectado encontrou essa proteção, arrancou-a, tirou o motor e atirou-o contra mim. Sorte minha que sua mira não era lá das melhores, mas conseguiu atingir uma pilastra do porto, que era resistente e fez o motor quicar de volta para o mar. Foi-se junto minha chance de voltar para casa.
Comecei a correr novamente, e avistei um barril de gasolina. Tudo agora estava em ordem para executar meu plano. Esperei que o monstro quase conseguisse me alcançar, chutei o barril deitado, o que o fez rolar em direção à suas pernas. Quando estavam rentes os dois, monstro e barril, atirei incessantemente com a UZI, até que provoquei uma explosão.
Pulei. A pressão me jogou para muito longe, me machuquei, mas não me queimei muito. Esperei a fumaça diminuir e vi o infectado caído e sangrando no chão. Agora comigo mais calmo e ele parado, pude perceber que "aquilo" era ainda maior do que eu imaginara, não cheguei perto, pois o fogo ainda cobria o chão.
Após tudo o que havia acontecido é que reparei que não havia nenhuma embarcação no porto, a não ser pelo FR. Era evidente que todos tinham fugido dali. A fome me batia fortemente, e então fui até a cozinha da lancha para pegar alguma comida e beber alguma coisa, mas antes, verifiquei meu estoque. Quase tudo havia acabado, tinha ainda um prato feito na geladeira e dois fardos de latinhas de coca-cola. Liguei o microondas e coloquei o prato ali. Ajustei cinco minutos e fui separar uma roupa para tomar um banho. Quando encontrei uma boa roupa, coloquei-a na pia do banheiro (que estava todo ensanguentado), e fui jantar, ou tomar o café da manhã, já que a madrugada terminava.
Comi. Pronto, acabavam-se ali meus suprimentos, juntamente com minha fome momentânea. Tomei um banho e vesti a roupa que havia separado. Toda a roupa era muito grossa, para evitar possíveis mordias ou arranhões, até mesmo meu sapato, um coturno de couro que eu usava para pescar. Peguei o facão e coloquei-o por dentro da calça, do lado esquerdo. Também procurei por um colete salva vidas, tirei sua correia e passei pela UZI, o que me deixou colocá-la com o apoio no pescoço, sem precisar segurá-la, me deixando com as mãos livre.
Já pronto, fui analisar o estrago que o monstro havia feito no FR, aquele maldito filho da ...
Enfim, os danos eram irreparáveis, e mesmo que eu conseguisse retirar o motor da água, ele não funcionaria mais.
Minha única chance de ir para Ronde Island, onde por pelo menos seis meses eu estaria seguro, era com o FR. Com ele quebrado, isso se tornava ainda mais difícil, principalmente porque ele é uma das lanchas mais preciosas do mundo, sua fabricação é exclusiva na matriz da minha empresa, no Brasil, assim como qualquer peça para elas. Agora eu estava com um problema em mãos. Eu não iria ao Brasil pegar um motor para o FR, mas podia construir um novo motor que se encaixasse nele, com algumas peças e ferramentas isso seria possível.
Peguei alguns galões de água e estoquei na carroceria da F-250, pra quando precisasse. Decidi tomar meu caminho para ver o que poderia encontar de útil nele. Onde exatamente eu estava indo agora? Não fazia a mínima idéia.

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